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Rock Brado
 


O espaço do Rock Brado serve para o velho Eremita espalhar suas ranhetices. Mas, também, para mostrar trabalhos de outras pessoas que tenham idéias que venham ao encontro da linha editorial deste blog. A tendência é aumentar gradativamente as participações de outras pessoas, principalmente a partir do momento em que eu descobrir o que seria exatamente uma “linha editorial”.  De qualquer forma, o texto a seguir é o primeiro de um terceiro (na verdade, de um segundo) a ser publicado neste aromatizante blog. O terceiro é o Aluizio Falcão. Não tenho a menor idéia de quem seja, mas sou fã desse texto. Eu o guardo há muito tempo. Não trata de Rock, mas é brilhante ao abordar uma coisa que o Eremita também combate: o rebuscamento na expressão das idéias. Detesto isso. Lembra para mim algumas das regras das chamadas “boas maneiras”. Não tem função prática nenhuma, servem apenas como um código disfarçado para criar uma barreira invisível entre os ricos (ou no caso da expressão de idéias, dos pseudo-intelectuais) e os demais.

 

Depois do terceiro uísque – parte 1

Aluizio Falcão

 

Depois do terceiro uísque, qualquer paulista normal, com idade superior a trinta anos, passa a gostar das baladas de Roberto Carlos. A conclusão é também válida para acadêmicos da PUC/USP/UNICAMP, soció1ogas descasadas, críticos pós-modernos, jornalistas em geral, militantes do Partido dos Trabalhadores e, last but not least, esse psiquiatra que vos fala. Dá-se, nesse transe, que o precioso líquido escocês, queimando nas fornalhas do metabolismo, ilumina uma zona escura do cérebro, onde secretamente habita nossa porção latino-brega. Afloram, de repente, canções baratas e adormecidas no inconsciente sob o véu de escrúpulos estéticos. Depois do terceiro uísque, ninguém é de ferro. Até o deputado José Genoíno é capaz de cantar, em lágrimas, “O botão da blusa”.

 

Não me perguntem detalhes da metodologia que usei para chegar a essas revelações. O Pasquim não é um jornal científico e sou pago para escrevinhar amenidades. Não tenho comigo as planilhas. Se a tanto for obrigado, posso exibi-las diante de um tribunal técnico.

 

O máximo que faço hoje é contar um, dentre centenas de testes realizados. Foi no “Bucca Del Pazzo”, faz tempo, em noite de garoa e boemia. Eu conto.

 

Usei nesse teste, como cobaias, dois conhecidos jornalistas da praça, ambos poetas. Intelectuais, portanto, ou pelo menos assim identificados em manifes­tos que assinaram na última campanha eleitoral.



Escrito por cucci às 21h04
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Depois do terceiro uísque – parte 2

Aluizio Falcão

 

Iniciei o teste provocativamente, elogiando Roberto Carlos e cantarolando aquele clássico erótico-sentimental que diz: “Nos lençóis da cama/amantes se dão/travesseiros soltos/roupas pelo chão...”, então nas paradas de sucesso da Radio América. Como todos os indivíduos pesquisados, esses dois, ainda na primeira dose, protestaram com veemência. Roberto Carlos foi acusado de melodista repetitivo, rouxinol da Votorantin, porta-voz da classe média alienada, seresteiro de motel e outras jóias do nosso cancioneiro crítico. Um dos meus entrevistados disparou, com certo espírito: “Roberto Carlos é o melhor compositor de musica ruim que existe.”

 

Rimos. Bebemos. Mudamos de assunto. Aparentemente. Digo aparentemente porque, no meio da segunda dose, comecei a contar uma estória que me levaria, por vias transversas, ao objetivo central da pesquisa.

 

“Pablo Neruda foi um poeta supe­rior”, comentei distraidamente, obtendo a óbvia concordância dos dois. Prossegui: ainda ontem achei num sebo do centro da cidade um livrinho raro já editado em vários idiomas, escrito por Matilde, a primeira mulher do poeta. Era uma edição em italiano: “Ricordanza della mia gioventú”. Memórias de mocidade, quando ela conheceu Neruda em Paris, ambos estudantes bolsistas, recém-chegados do Chile.

 

Minhas duas cobaias arregalaram os bugalhos. Sorviam prazerosamente cada palavra do meu relato, junto com os restos da segunda dose, Aquilo sim era um bom assunto, disseram. Assunto de estilo, como convém a gente da nossa estampa. Continuei a estória.

 

Matilde e Neruda conheceram-se num bistrô do Quartier Latin. Tinham dezoito anos, eram belos, pobres e apaixonados. Naquela remota madrugada em Paris, diante de uma garrafa de Beujolais quase vazia, o jovem Neruda perguntou: “Vamos casar, Matilde?”. Ela sorriu, alvoroçada: “Sim, Pablo, vamos casar. Ainda hoje, ainda nesta noite. Façamos a festa.” O poeta quis comemorar e contou os míseros francos disponíveis. Talvez dessem para mais uma garrafa de vinho, talvez não. Mesmo assim chamou o garçom, pediu ousadamente outra garrafa. E naquele momento escreveu no guardanapo de papel um verso que Matilde guardou por toda a vida. Um verso que o livrinho dela reproduzia em fac-símile, 52 anos depois, co­mo documento daquele arrebatamento juvenil: “Matilde, nós somos a festa e a dose atrevida. a) Pablo”.

 

Meus dois ouvintes, terminando a terceira e engatando a quarta dose, explodiram de entusiasmo. Puseram-se a elogiar os poemas de amor de Pablo Ne­ruda, especialmente esse verso inédito que repetiam em portunhol: “Nosotros somos la fiesta e la dose atrevida”...

 

Aí veio o anticlímax. Eu disse: “Pois bem, saibam que essa estória é inverídica. Acabo de inventá-la. Nunca houve esse pobre amor em Paris, não existe o tal livrinho de Matilde e o poeta Neruda jamais escreveu esse verso, que não pas­sa de um trecho da música “O gosto de tudo”, de Roberto Carlos. E cantei a balada inteira.

 

Quase fui apedrejado com o gelo que restava no balde. E comprovei naquela noite quão relativo é o rigor estético da intelectuália, nesse terceiro mundo. Depois do terceiro uísque.

 

Publicado no Pasquim São Paulo, edição 21 (20 a 27/11/1986)

Editora Codecri Ltda.

 



Escrito por cucci às 21h03
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